terça-feira, novembro 23, 2010

O dedo os dedos

O dedo mais que dedo dos meus dedos
este undécimo dedo dos meus dedos
clarividente cego entre os meus dedos
conhece-te melhor do que os meus dedos

Percorre-te por dentro Encontra dedos
os dedos que por dentro de ti dedos
mais dentes são gengivas do que dedos
mais palatos em fogo do que dedos

E súbito pergunto Que é dos dedos
ó mais unhas por fora do que dedos
ó mais luva por dentro do que dedos

Mas eis de novo dedos dedos dedos
apertando em seus dedos ah tão dedos
o dedo mais que dedo dos meus dedos

David Mourão – Ferreira
[Matura Idade, 1973]

domingo, outubro 10, 2010

Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário.
Um púcaro com vinho refrescava
Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Traspassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao refletir, soubessem desde a alma
Que por certo as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predileto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida.
Os haveres tranqüilos e avitos
Ardem e que se arranquem,
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós-próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a sombra tranqüila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo do xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo do xadrez
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.


Ricardo Reis

segunda-feira, outubro 04, 2010

De otro, de ningún, todo en mi es naufragio

Y la ternura, leve como el agua y la harina

Y la palabra apenas comenzada en los labios.

Todo en ti fue naufragio!

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos. 

Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Pablo Neruda

quinta-feira, junho 24, 2010

Angústia de ser escravo do outro

A liberdade  é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só nasceste escravo.

Ainda não consegui não sofrer com a minha solidão. Tão difícil é obter aquela distinção de espírito que permita ao isolamento ser um repouso sem angústia.

Fernando Pessoa

 

segunda-feira, abril 05, 2010

Phosphatidylinositol-4-Phosphate Phosphatase

Quem me dá mais ph's num só nome, hein? Melhor que isto só fazer estudos superiores nos Países Baixos.

domingo, abril 04, 2010

Bullshiting a way out

Last lesson to learn during the PhD: how to bullshit effectively. Forget all you've done, or wanted to do. In the end, it amounts to little more than nothing. Bullshitting is all there is to it. Bullshit fast, bullshit good - you'll do just fine.

Pan leu e gostou de...

"A novia de Odessa" de Edgardo Cozarinsky

"(...) Lisboa hace hitos turísticos de sus glorias defuntas. El visitante que se fotografía junto a la estatua de bronce de Pessoa (...) es probable que no suspeche hasta qué punto la extrema singularidad de esa obra es típica, por lo excepcional, del destino del país que vio nascer a su autor, de la ciudad donde vegetó oscuramente. " 



quinta-feira, março 11, 2010

Gente feliz com lágrimas

Por estes dias lembrei-me deste livro de João de Melo e ocorreu-me pensar que é bem mais difícil sorrir que chorar. Curioso, não? Mas não há lágrima que não seque e sorriso que não volte. E ainda que por um só momento, dei por mim a cantar Just be thankful for what you've got...


domingo, fevereiro 21, 2010

D'une finesse sublime

Not so often do we find yourselves overwelmed by the sublime beauty of a song. This lady overwelmed me yesterday.

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

O Livro de Segunda

Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais - se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.

O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã também eu - a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim - sim, amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros vagamente evocarão com um "o que será dele?". E tudo quanto faço, tudo quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.

do Livro do Desassossego

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

O rasto alegre de uma lesma!


vai na volta nasci para ser lesma...e lesmar pelo verde apetitoso de uma folha de couve....e espalhar alegremente a minha gosma pelo caminho!sim é isso!

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Acordar tarde

Eis o que tenho feito ultimamente - acordar tarde. Que mais resta fazer neste Inverno escuro e frio?

domingo, janeiro 24, 2010

Um cigarro e um beijo

Pedi-te um dia um cigarro
Acedeste ao meu desejo
E tu num gesto bizarro
Em troca pediste-me um beijo

Com esta troca afinal
Que fizemos a brincar
O bolo nao era igual
E tu ficaste a ganhar

Mas a culpa foi só minha
Beijar por coisa tão pouca
Não sei o que o beijo tinha
Que queimou a minha boca

do Fado cantado por Saudade dos Santos